Alentejo

Alentejo

A PraçaOct 14, '20
As regiões, tal como os homens, as mulheres e quase tudo na vida, não se medem aos palmos. Mas o tamanho do Alentejo — a maior região do país — é uma das suas maiores virtudes. Porque é esse tamanho que lhe dá uma variedade ímpar de produtos e receitas, que vão mudando conforme muda a morfologia do terreno.

Se o microclima da Serra de São Mamede favorece cogumelos e castanhas, a extensão do montado entre Montemor e Beja é ideal para os porcos da raça Alentejana (como se pode encontrar na Montaraz do Garvão ou na Salsicharia Canense, da D. Octávia) crescerem livres e bem alimentados. Se nas rochas do litoral se escondem sargos que sabem a marisco, nas barragens do interior não faltam carpas nem lagostins para animar o banquete.

E por falar em banquete, no Alentejo nenhum começa sem uma trilogia essencial sobre a mesa: pão, queijos e enchidos. Nem podia ser de outra forma: a grande tradição das queijarias e salsicharias atravessa toda a região, de Estremoz a Barrancos, de Portalegre a Serpa. 

Para temperar há azeite de Moura, suave e frutado que só ele, ou o de Nordeste, como o da Herdade do Esporão. No copo é rei o vinho da talha, como o dos Outeiros Altos, feito conforme a tradição ou mais próximos do mar, na bela Costa Vicentina encontramos os vinhos Vicentino.

A gastronomia alentejana, partindo de uma génese pobre é igualmente rica. O paradoxo explica-se facilmente: historicamente, os alentejanos eram um povo de camponeses, que viviam de jorna em jorna. O pouco que tinham era para durar, nada se desperdiçava.

Muitas das magníficas receitas alentejanas que hoje são motivo de romaria aos restaurantes da região começaram, assim, por ser de aproveitamento: o pão aproveitava-se para as migas e açordas, o sangue e as partes menos nobres do porco, para petiscos como a cabeça de xara ou o arroz de cachola. Ervas selvagens, como poejos e catacuzes, ou plantadas, casos da hortelã e dos coentros, aproveitavam-se para perfumar toda e qualquer receita. Um perfume que vai, felizmente, perdurando no tempo.